terça-feira, 10 de março de 2009

São Paulo em Sto. Agostinho

O que o alegrava era aquilo de que S. Paulo se nutria, pois afirmava com verdade: «Alegrai-me sumamente no Senhor, por ter de novo florescido a vossa estima para comigo, em que antes abundáveis, já que eu vos tinha causado aborrecimento».
Qual o motivo da tua alegria, ó grande Paulo? Qual o motivo do teu júbilo? De que te alimentas, ó homem «renovado para o conhecimento de Deus, segundo a imagem do que te criou», ó alma viva tão pura, língua alada que nos fala de mistérios? Porquê a esta espécie de animais se deve tal alimento? Diz-me o que é que naquela obra dos Filipenses serviu de manjar à tua alma? - A alegria. (Confissões Livro XIII,26)

Apresentações de Paulo nas suas cartas

Romanos
Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser Apóstolo, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus.

1ª Coríntios
Paulo, chamado por vontade de Deus a ser apóstolo de Cristo Jesus, e Sóstenes, nosso irmão, à igreja de Deus que está em Corinto.

2ª Coríntios
Paulo, apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus que está em Corinto.

Gálatas
Paulo, apóstolo - não da parte dos homens, nem por meio de homem algum, mas por meio de Jesus Cristo e de Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos - e todos os irmãos que estão comigo, às igrejas da Galácia.

Efésios
Paulo, Apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, aos santos e fiéis em Cristo Jesus que estão em Éfeso.

Filipenses
Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com seus bispos e diáconos.

Colossenses
Paulo, Apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, e o irmão Timóteo, aos irmãos em Cristo, santos e fiéis, que vivem em Colossos.

1ª Tessalonicenses
Paulo, Silvano e Timóteo à igreja de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, que está em Tessalónica.
2ª Tessalonicenses
Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, que está em Tessalónica.
1ª Timóteo
Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, por mandato de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança, a Timóteo, verdadeiro filho na fé.
2ª Timóteo
Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, por desígnio de Deus, segundo a promessa de vida que há em Cristo Jesus, a Timóteo, meu filho querido.

Tito
Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, em ordem à fé dos eleitos de Deus e ao conhecimento da verdade, que conduz à piedade, na esperança da vida eterna, prometida desde os tempos antigos pelo Deus que não mente e que, no devido tempo, manifestou a sua palavra, pela pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador: a Tito, meu verdadeiro filho, pela fé comum, a graça e a paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador.

Filémon
Paulo, prisioneiro por causa de Cristo Jesus, e o irmão Timóteo, a Filémon, nosso querido colaborador, à irmã Ápia, a Arquipo, nosso companheiro de luta, e à igreja que se reúne em tua casa.

Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo (1Cor 9, 22b)

É esta a frase que elejo em São Paulo. São Paulo não era homem de chegar com uma pregação pré-fabricada, ou com um tipo de postura do tipo "pack" que depois desembrulhava e aplicava nos sítios por onde passou. São Paulo nunca procurou impor-se a ninguém. Pelo contrário, partia da realidade que encontrava e fazia caminho a partir daí. Com os gentios, foi gentio e percebeu que a Lei e a circuncisão não tinham de lhes ser impostas; com os judeus foi judeu. Onde estava trabalhava; em Atenas falou a atenienses...

Como dizia Teófilo de Antioquia, «mostra-me o homem que há em ti e eu te mostrarei o meu Deus» (em Ad Autolycum), São Paulo dirigia o anúncio do Evangelho a homens concretos, atendendo ao concreto das suas vidas, comungando das suas vidas, permanecendo com eles. Os contextos em que viviam tornavam-se os contextos em que ele próprio passava a viver, evangelizando a comunidade a partir de dentro.

Identifico-me com isto. As minhas experiências pastorais têm mostrado que quando procuro pregar-me a mim, a minha cultura, as minhas convicções próprias sem atender às pessoas concretas a que me dirijo, posso até dizer generalidades muito bonitas, mas não passam de sementes deitadas ao vento, que não encontram nenhum solo concreto.

A concepção paulina do apostolado

Da audiência de 10 de Setembro de 2008 do Papa Bento XVI

Paulo tinha um conceito de apostolado que ultrapassava o que se relaciona apenas com o grupo dos Doze, transmitido sobretudo por São Lucas nos Actos (cf. Act 1, 2.26; 6, 2). De facto, na primeira Carta aos Coríntios Paulo faz uma clara distinção entre "os Doze" e "todos os apóstolos", mencionados como dois grupos diversos de beneficiários das aparições do Ressuscitado (cf. 14, 5.7). Naquele mesmo texto ele começa em seguida a referir-se a si mesmo como "o último dos apóstolos", comparando-se até com um aborto.Nas suas Cartas sobressaem três características principais, que constituem o apóstolo. A primeira é a de ter "visto o Senhor" (cf. 1 Cor 9, 1), ou seja, de ter tido com Ele um encontro determinante para a própria vida. A segunda característica é "ter sido enviado". A própria palavra grega apóstolos significa precisamente "enviado, mandado", ou seja, embaixador e transmissor de uma mensagem; portanto ele deve agir como encarregado e representante de um mandante. É por isso que Paulo se define "apóstolo de Jesus Cristo" (1 Cor 1, 1; 2 Cor 1, 1), o que significa seu delegado, que se põe totalmente ao seu serviço, a ponto de se qualificar também "servo de Jesus Cristo" (Rm 1, 1). A terceira característica é a prática do "anúncio do Evangelho", com a consequente fundação de Igrejas. De facto, o título de "apóstolo" não é nem pode ser título honorífico. Ele compromete concreta e também dramaticamente toda a existência da pessoa interessada. Na primeira Carta aos Coríntios Paulo exclama: "Não sou apóstolo? Não vi eu a Jesus Cristo, Nosso Senhor? Não sois vós a minha obra no Senhor?" (9, 1).

segunda-feira, 9 de março de 2009

O ambiente religioso-cultural na época de S.Paulo

Gostaria de pegar naquela que foi a primeira catequese de Bento XVI neste ciclo sobre S.Paulo que se prolongou por 20 sessões. Começa o Papa por se referir ao ambiente onde Paulo estava inserido, um aspecto que é determinante para quem desejar conhecer a fundo a vida e os escritos do apóstolo. Vindo de uma cultura específica mas minoritária como a é a do povo de Israel, Paulo experimentava essa distinção em relação ao ambiente abrangente do Império romano. A sua missão vai depois desenvolver-se duma maneira nunca alheia ao que era a efervescência da cultura grega, desde Alexandre Magno. Todos esses factores tinham uma determinada expressão, com a qual Paulo soube jogar para se lançar na aventura da inculturação do Evangelho. Por outro lado, e igualmente incontornável, a estrutura político-administrativa do império romano torna-se responsável pela unificação de um território com dimensões até então nunca vistas. É graças à mão dos romanos, que Paulo dispõe de condições essenciais a um viajante como ele, tais como: possibilidade de se mover com liberdade e segurança, usufruir de um sistema rodoviário inovador e o próprio facto de encontrar em cada ponto de chegada, um determinado conjunto de características culturais de base, sobre as quais se podia debruçar e trabalhar. Para alguém com uma visão universalista como S.Paulo, tais características foram fulcrais para o empreendimento da sua missão. A peculiaridade de Paulo passa aliás por ser considerado como um homem de três culturas, já que engloba uma matriz judaica, a língua grega e a sua prerrogativa de direito de cidadão romano, conforme atesta o nome de origem latina. Paulo possui desta forma, uma versatilidade visível, que lhe permite ir ao encontro da filosofia estóica que na sua altura proliferava. Paulo não corta com a filosofia humanista vigente, mas impregna-a com um novo sentido que é cristológico; também no episódio do Areópago de Atenas, Paulo utiliza um discurso que vai de encontro ao que é o universo concepcional e de sentido que ali se encontra. Só assim fazem sentido as palavras de Paulo que nessa ocasião dizem que Deus não habita em santuários de mãos humanas, mas é n´Ele vivemos, nos movemos e existimos. Com esta estruturação Paulo não fecha a porta às várias realidades vivenciais e religiosas, mas propõe-se dar testemunho da fé cristã no seio de todas essas dimensões.

O ofício de Paulo


Vários são os momentos das suas cartas em que Paulo se refere ao seu trabalho como forma de sustento próprio. Muitos estudiosos têm tentado perceber que tipo de trabalho era esse e que importância tinha na missão de Paulo. Faço aqui um breve resumo a partir do capítulo 4.1 da obra Pablo de Tarso e los origenes cristianos, de Giuseppe Barbaglio.

Em Act 18 ficamos a saber que, assim que chega a Corinto, Paulo emprega-se no atelier de Aquila e Priscila. O termo usado é zkenopoios, fazedor de tendas (mas também pode significar trabalhador do couro).
Talvez tenha aprendido este ofício com o seu pai, como frequentemente acontecia entre os judeus, segundo a doutrina dos rabinos que obrigava o pai a ensinar um ofício aos filhos, ao mesmo tempo que se empenhavam no estudo da lei mosaica.
Nas suas cartas Paulo nunca diz qual o trabalho de que se ocupava. Em 1Ts 2, 9, diz que trabalhava duramente noite e dia para não ser um peso para ninguém. Em 1 Cor 4, 12, diz: «cansamo-nos a trabalhar com as nossas próprias mãos», integrando essa necessidade de trabalhar na via crucis que tem de percorrer diariamente como discípulo do Senhor.
Paulo não precisaria de trabalhar, se não quisesse. As comunidades concerteza mantê-lo-iam. Mas para ele era essencial não se tornar pesado às comunidades e, a isso, aliar a liberdade e a eficácia de um anúncio gratuito e desinteressado. Como dizia em 1Cor 9, 15-18, «Eu, porém, não me aproveitei de nenhum desses direitos, nem tão pouco estou a escrever para os reclamar. Preferiria antes morrer do que... Ninguém me poderá privar deste título de glória. Porque, se eu anuncio o Evangelho, não é para mim motivo de glória, é antes uma obrigação que me foi imposta: ai de mim, se eu não evangelizar! Se o fizesse por iniciativa própria, mereceria recompensa; mas, não sendo de maneira espontânea, é um encargo que me está confiado. Qual é, portanto, a minha recompensa? É que, pregando o Evangelho, eu faço-o gratuitamente, sem me fazer valer dos direitos que o seu anúncio me confere.» O prémio do Apóstolo não está nas coisas materiais e o anúncio do Evangelho não é um projecto dele, mas de Jesus. Não era no dinheiro que Paulo estava interessado, mas nas pessoas: «não procuro as vossas coisas mas a vós mesmos» (2Cor 12, 14). Exactamente por este motivo é que Paulo gastará a sua vida ao serviço das comunidades que visita, em nome do Evangelho de Cristo. Não há salário que pague a vida de Paulo, só Cristo Crucificado, centro da pregação do Apóstolo, paga essa dívida!
Mas entenda-se que o facto de decidir sustentar-se a si mesmo, Paulo não ficou cego com esta opção. Por isso, quando estavam postas de lado todas as possibilidades de mal-entendidos acerca das suas intenções, não recusava a ajuda das comunidades (Cf. Fl 4, 14-16).
No contexto cultural de Paulo, o trabalho manual não era visto pelos hebreus como humilhante, como se pode constatar pela história do povo de Deus que nos é transmitida através das Escrituras. O homem que trabalhava não era um ser inferior e muitos rabinos, paralelamente à função de ensinar, mantinham trabalhos manuais como forma de viver sem sobrecarregarem os discípulos. Mas se nos referirmos à cultura greco-romana, isso já não era assim. O trabalho manual era olhado de forma depreciativa. O ideal era que o homem pudesse dedicar-se inteiramente à formação do espírito deixando os trabalhos manuais para os escravos. Claro que esta atitude era suportada pelos grandes filósofos gregos como Aristóteles e, também, pelos letrados romanos, como Cícero.
Neste contexto, nas cidades onde se encontrava, Paulo pertencia às camadas mais baixas da sociedade, facto de que ele próprio tinha consciência, como se vê em 2Cor 11, 7, quando se refere humilhado: «Porventura cometi alguma falta, ao humilhar-me para vos exaltar, quando vos anunciei gratuitamente o Evangelho de Deus? Despojei outras igrejas, recebendo delas o sustento para vos servir, e encontrando-me necessitado no meio de vós, não fui pesado a ninguém, pois os irmãos vindos da Macedónia é que proveram às minhas necessidades». O que importa considerar é que, por causa dos trabalhos que realizava, não podemos incluir Paulo na camada dos incultos, como pensavam os gregos, mas entre os cultos, como provam as suas cartas.
Podemos pensar que o seu trabalho o privava de tempo precioso à evangelização, mas o facto é que Paulo nunca deixou de encontrar ocasiões para evangelizar quer estivesse a trabalhar, quer estivesse preso, quer estivesse a viajar de barco entre cidades. Aliás, este é um aspecto não depreciável do seu trabalho: a pregação no contexto de uma comunidade de vida e trabalho.

sábado, 7 de março de 2009

Retirados com S.Paulo

Pretendo com este texto não tanto fazer uma exposição sobre S.Paulo mas partilhar alguns ecos do retiro que a comunidade do seminário dos Olivais teve a graça de viver e que teve precisamente em S.Paulo a sua temática principal. Parece-me enriquecedor trazer isso para o nosso blog, porque a teologia sem uma atitude orante interior a si, será irremediavelmente uma teologia redutora, não centrada na fonte donde lhe vêm todos os seus tesouros. A teologia faz-se de joelhos, e se assim é, todos os que de nós estivemos fora durante esta semana, ficando assim impossibilitados de comparecer às aulas, não mandámos propriamente a teologia dar uma curva. Pelo contrário, um retiro constitui um momento privilegiado para darmos novo sentido ao estudo da teologia e ao que ela significa para nós. Dentro deste espírito, o nosso caro S.Paulo foi para mim uma figura marcante no decurso destes dias. Não bastava já ser uma figura central da teologia, como se revelou agora para mim, uma personagem incontornável da espiritualidade cristã. Não admira por isso a sua vasta e exímia amplitude dentro do universo cristão e tal advem-lhe do facto de reflectir sempre o seu brilho para Cristo. Sem Ele, a vida de Paulo seria sempre uma odisseia, sem dúvida digna de registo, mas pouco mais que isso. Percorrer os passos de S.Paulo foi um pouco da experiência do retiro e ver que os nossos pés também cabem nas suas pegadas, é uma descoberta ímpar que somos todos chamados a fazer. Paulo faz-nos compreender que o Cristianismo é uma experiência humana, que encarna totalmente na nossa vida. É uma experiência que se faz na vida quotidiana do mundo, onde descobrimos os traços do transcendente a habitar connosco esta terra. Não se trata de algo exterior a nós, mas de uma vida que podemos tocar com estas mãos, ainda que sempre com o pressentimento de ainda não o alcançarmos totalmente. Mas é precisamente isso que nos dá o anseio de não nos darmos por satisfeitos ou de, ingenuamente pensarmos que a nossa meta está alcançada. É este desejo que podemos presenciar em Paulo e que o faz despojar-se de si, porque ele entende a certa altura, que a sua vida não é outra senão a vida de Cristo.
Pude verificar nestes dias em Paulo, a imagem do paradoxo, que tão explicitamente transparece nas palavras do próprio apóstolo. E de facto, que é o Cristianismo senão uma contínua experiência paradoxal, que parece esmagar-nos, mas ao mesmo tempo, constitui um caminho provocatório aliciante? Como se pode ser forte, quando se é fraco? Como se pode pregar num grito jubiloso, um Cristo crucificado? Como pode fazer sentido considerar tudo como lixo? Como pode um homem gloriar-se nas suas fraquezas? Como pode ser a cruz o auge do divino no meio dos homens? Como? E o mais bizarro é que isto pode tardar a fazer sentido, pode demorar uma vida a perceber. Sabemos que não vamos lá apenas com um esforço intelectual ou com um raciocínio bem estruturado. Este domínio nesta compreensão não o alcançaremos; resta-nos a esperança de que tal como aconteceu com S.Paulo é Ele que nos alcança.